20 de abril de 2009

A greve que parou São Paulo

Do outro lado da rua, o comandante da tropa de cavalaria ordena que a multidão se disperse. Há um momento de tensão e silêncio. Em seguida, ecoa a fuzilaria. A polícia dispara sobre os operários e a cavalaria investe contra a multidão. Sobre a calçada da Fábrica Mariângela há um operário mortalmente ferido. É José Martinez, jovem anarquista de 22 anos. È o dia 9 de julho de 1917.

Um mês antes os operários do Cotonifício Crespi já haviam paralisado seu trabalho, pedindo 25% de aumento, diante da decisão da empresa em prolongar o trabalho noturno. Porém a intransigência patronal provocou a paralisação. No dia 15 de junho, os operários realizam uma passeata pelas ruas do Brás. A polícia intervém e a manifestação é dispersada e há vários presos.

A greve alastra-se para outras fábricas, e no dia 3 de junho, já existem 5.000 grevistas e a União dos Operários em Fábricas de Tecidos de São Paulo pede que a Ligas operárias de Minas Gerais, Rio Grande do Sul  e Rio de Janeiro declarem boicote aos produtos das empresas Crespi.greve1917_I

Na capital paulista há uma manifestação com a participação de um grande número de mulheres e menores operários. A polícia montada intervém, dissolvendo a manifestação quando esta se encaminhava para a praça da Sé, com espancamentos e prisões. no dia 7 de julho, cerca de mil operários da cervejaria Antarctica aderem à greve. Nos dias seguintes, há manifestações no Brás e na Mooca e os estabelecimentos fabris vão paralisando o trabalho e seus funcionários aderem imediatamente à massa que esta na porta. É neste dia que ocorre o assassinato de José Martinez.

Na noite do dia 9 de julho, depois que o delegado Tirso Martins fechou todas as sedes das ligas e uniões operárias de São Paulo, realiza-se, no Salão Germinal, grande concentração operária. È lida a adesão da Federação Operária do Rio de Janeiro e oradores verberam com indignação a chacina em que tombaram vários trabalhadores. No dia seguinte, os grevistas lançam um manifesto aos soldados.

“Não deveis perseguir os vossos irmãos de miséria. Vós também pertenceis à grande massa. A fome reina em nossos lares, e os nossos filhos nos pedem pão.”

No dia 12 de julho, o enterro de José Martinez é a senha para greve geral, com 10.000 pessoas acompanhando o féretro. Barricadas são erguidas no Brás e na Mooca, começam os tiroteios e saques de casas comerciais. Há mais de 70 mil trabalhadores em greve. É constituído o Comitê de Defesa Proletária, liderado por Edgard Leuenroth, Florentino de Carvalho, Antônio Duarte, Francisco Ciani, Rodolfo Felipe, Luigi Damiani e Teodoro Monicelli.

O Comitê formula as reinvidicações da greve: 33% de aumento para os salários inferiores; proibição do trabalho para menores de 14 anos; abolição do trabalho noturno de mulheres e menores de 18 anos; jornada de oito horas; respeito ao direito de associação; congelamento dos preços dos alimentos e redução de 50% nos aluguéis. Enquanto isso se sucedem os choques entre a polícia e os operários, com vários mortos e feridos.

Diante desta repressão e da intransigência do Governo paulista o Comitê recusa-se a efetuar negociações. Nesse momento, jornalistas da grande imprensa resolvem  criar uma comissão para mediar às negociações. A comissão propõe um acordo, com aumento de 20%, sem dispensa dos grevistas. Após muitas objeções, os operários aceitam, mas exigem que o governo tome medidas contra a carestia e garanta os direitos dos trabalhadores. O acordo é feito a 15 de julho de 1917, pondo fim à greve que parou a cidade de São Paulo durante uma semana.

Fonte de pesquisa: Nosso Século, Abril Cultural, 1981.

 

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2 comentários:

  1. Que bela aula de história, Luiz! Parabéns pelo artigo.

    Abraços

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  2. Muito bacana, Luiz. Como disse o Rodrigo, uma verdadeira aula.

    Abraços.

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