5 de janeiro de 2011

Infraestrutura ou morte!

Nunca uma questão foi colocada de maneira tão crua e tão direta: ou ampliam-se e fortalecem-se as condições de infraestrutura do grande oeste de Santa Catarina ou as agroindústrias se transferirão ao centro-oeste brasileiro.

Desde a década de 1960, empresários e produtores rurais constroem o que é considerado o maior parque agroindustrial do país, formado por indústrias de processamento de aves, suínos, grãos e leite. Essas unidades são alimentadas com matéria-prima produzida por 150 mil famílias rurais e sustentam mais de 60 mil empregos diretos.

Longe dos grandes centros de consumo e dos portos, o milagre de construir esse império em uma região com deficiências de estradas e comunicações, somente se explica pela vocação ao trabalho das etnias que predominam na paisagem humana do oeste – especialmente os descendentes de italianos e alemães – e pelo arrojo de empreendedores.BR282

Cinqüenta anos depois, dois fenômenos ameaçam a hegemonia e a viabilidade das agroindústrias catarinenses. De um lado, a transnacionalização das economias e o aumento da competitividade no setor de alimentos passaram a exigir absoluta racionalização dos custos, paralelamente à busca incessante pela qualidade. De outro, a ausência ou insuficiência de investimentos em obras capazes de otimizar a logística de transportes ameaçam inviabilizar a operação de plantas agroindustriais. Nesse aspecto, é frustrante constatar que o oeste detém a menor taxa de investimentos públicos federais e estaduais de todas as regiões do hinterland barriga-verde.

O exemplo mais emblemático é a situação da BR282. Construída nas décadas de 1960/1970, a BR282, uma rodovia federal traçada para assegurar a efetiva integração territorial de Santa Catarina, ligando Oeste, Planalto e litoral, traz consigo dois estigmas: o primeiro, de ser concluída 40 anos depois e, portanto, incapaz de cumprir seu desiderato; o segundo, de registrar permanente estado de abandono em importantes trechos de seu traçado.

A rodovia foi concebida como um ícone para integração política, econômica e cultural. O Oeste, distante e abandonado, mantinha profundas ligações com as capitais sul-rio-grandense e paranaense, sem mencionar a fronteira com a República Argentina e acalentava a ideia de constituir nova unidade da Federação.

Na condição de espinha dorsal do sistema rodoviário catarinense, a BR282 é essencial para o escoamento da vasta produção agroindustrial do Oeste de Santa Catarina aos portos e aos grandes centros brasileiros de consumo. Por ela transitam milhões de dólares em produtos exportáveis que asseguram as divisas das quais o país precisa para sustentar seu desenvolvimento. Na verdade, é o único caminho para escoar as riquezas exportáveis do grande oeste.

Considerada a principal via de acesso de escoamento da produção do oeste catarinense aos portos e aos grandes centros brasileiros de consumo, a BR282 ostenta infraestrutura incapaz de comportar o número de veículos que trafega diariamente pelo trecho. Somente a produção agroindustrial, soma mais de 500 mil toneladas de produtos na linha de carnes, grãos e lácteos transportados todo mês. Passam pela BR282 mais de 600 mil suínos/mês e 60 milhões de aves/mês (carga viva) que são conduzidos as agroindústrias. Sete em cada dez toneladas de carne suína e de aves exportadas pelo Brasil saem do Oeste catarinense.

A via tornou-se um gargalo logístico para o transporte de toda a produção agropecuária da região oeste, reconhecida como maior produtora de suínos do país, uma das maiores produtoras de aves, a maior exportadora de suínos e aves e o maior polo brasileiro de carnes industrializadas.

Não há cálculo direto sobre os prejuízos que essa situação representa, mas as empresas da região Oeste estimam que as péssimas condições da BR282 onerem os fretes em quase 40%. A duplicação dessa rodovia e, também, da BR470, com a qual se interliga para chegar aos portos, é uma necessidade urgente, premente, inadiável.

A duplicação da BR282 aliviará o problema, mas a solução definitiva está na construção das vias férreas. A estrada de ferro leste-oeste, também chamada de “ferrovia do frango” e de “ferrovia da integração”, ligaria os portos catarinenses à região produtora, reduzindo em pelo menos 4% os custos totais da exportação de carne. Embora esteja há 20 anos na pauta de lideranças empresariais e políticas, perdeu-se muito tempo com proselitismo. Neste ano, entretanto, o DENIT cumpriu duas importantes fases: a contratação do estudo de impacto ambiental e a elaboração do projeto técnico.

A outra via em questão é a extensão da Ferroeste, do Paraná, ferrovia que ligaria Chapecó ao Mato Grosso do Sul. Seria vital para transportar matéria-prima (milho e farelo de soja) do Mato Grosso do Sul para Santa Catarina. Esse projeto está mais próximo porque o estudo de viabilidade da 1ª fase do ramal ferroviário que liga a região do Cantuquiriguaçu, no Paraná, à Chapecó, em Santa Catarina, foi concluído em setembro de 2009.

O ramal seria alimentado pelo fluxo de grãos entre o Mato Grosso do Sul e Santa Catarina, pela exportação de carne congelados de aves e suínos, pelo transporte de calcário da região metropolitana de Curitiba e de fertilizantes do porto para as regiões produtoras, pela movimentação de derivados de petróleo e pela distribuição dos armazéns de grandes indústrias de produtos cárneos.

As deficiências da infraestrutura de transporte ferem o coração do agronegócio. O estado produz 4 milhões de toneladas de milho por ano e ainda importa 1,5 milhão de toneladas para saciar o apetite da indústria de carne. A maior parte desse milho vem do centro-oeste, encarecido em mais de 50% pelo transporte de longa distância.

Portos, aeroportos, armazéns e módulos multimodais – interagindo ferrovias, rodovias, hidrovias etc – é que garantirão o aproveitamento de oportunidades, inclusive de importação de grãos de países vizinhos. A verdade é que o grande oeste depende visceralmente da infraestruturação regional para manter suas agroindústrias – e essa não é uma ameaça, é o diagnóstico de lideranças como os presidentes da ACAV (Clever Pirola Ávila), da FAESC (José Zeferino Pedrozo), da OCESC (Marcos Antonio Zordan), da Coopercentral Aurora (Mário Lanznaster) e da ACIC (João Carlos Stakonski), entre muitos outros. É infraestrutura ou morte!

Por: Marcos A. Bedin/Jornalista, diretor da MB Comunicação, diretor regional da Associação Catarinense de Imprensa (ACI)/marcos.bedin@mbcomunicacao.com.br

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Um comentário:

  1. Grande Luiz, o problema não é apenas do estado de Santa Catarina, a malha viaria de todo o nosso Páis está caindo pelas tabelas, aliás, não só a malha viária, a infra-estrutura como um todo, e continuamos "empurrando com a barriga" ... até quando? Bem, acho que logo teremos a resposta ....

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