16 de fevereiro de 2009

Ah, essa sede de viver!

Existem várias formas de estar no mundo, de existir! Quando criança passamos pelas vivências sem nos darmos conta delas, mas absorvendo tudo, principalmente as palavras e sentimentos transmitidos pelas pessoas que nos são caras. O mundo dos objetos se apresenta à nossa percepção como uma eterna novidade e aí vamos nós querendo explorar e tocar tudo o que encontramos e descobrimos, a começar pelo seio materno que sacia a fome, a sede de amor e amparo. Tocamos o seio da mãe, mamamos e não sabemos que é ela. É como se nós e o mundo fosse uma coisa só, sem distinção a princípio. Chupamos os próprios dedos, descobrimos as mãos, aprendemos a caminhar e mil coisas, mas não temos a consciência de quem somos. Por isso talvez sempre me soe um tanto estranho a famosa frase que muitas vezes ouço de que a infância é uma das fases mais felizes da vida. Quem diz isso geralmente justifica por ser uma fase em que não existem maiores responsabilidades, e onde aparentemente há quase que só prazer, gratificações e na melhor das hipóteses, muito amor e proteção. Qual é a graça viver uma coisa “legal” (os adolescentes que estiverem lendo essa palavra vão me considerar jurássica) e não ter consciência de que isso é assim?

Pois bem, mas essa tomada de consciência de si mesmo não tarda a chegar, quando tudo transcorre como se espera no andar de um ser humano. Vem a adolescência e aí sim, com consciência, começamos a “re-conhecer” o mundo e a si mesmo. E a primeira impressão geralmente não é boa: queria ser mais gordo, ou mais magra, ter mais músculos, ou cabelos lisos, pernas mais compridas, etc. Nada estará como gostaria que fosse, possívelmente. Os pais então, nem se fala! Não estão com nada e pensam que sabem tudo. A verdade está na nova percepção do mundo, no adolescente. Como eles próprios dizem para alguém, digo agora que eles geralmente “se acham” e o resto, principalmente os adultos, está numa esfera superada.

É difícil, para não dizer praticamente impossível, fazer coincidir o mundo dos nossos desejos com as situações e objetos que encontramos. Sempre resta um gosto amargo de algo não finalizado. É claro que aí então inventamos coisas, dentro da parca consciência de nós mesmos, que pensamos que irão nos realizar: encontramos um amor, alguns permanecem juntos, outros não, exercemos uma profissão, geramos filhos, educamos-os, eles vão para o mundo e nós......cadê? O que buscamos ainda? De que precisamos? O que nos torna ou nos tornará mais felizes? Essas questões vem com mais veemência na maturidade e quem sabe mais intensamente ainda na meia-idade, momento em que ainda é possível rever e resgatar muitas coisas, pois a SEDE (substantivo de lugar) de viver, ou seja, o corpo e a subjetividade que habitamos, na melhor das hipóteses pode ter ainda muita sede (enquanto sensação), desejo de “viver” e não simplesmente existir comandado pelos ditames de Chronos, o Deus Tempo que carcome os nossos corpos, o que não me parece que seja o pior dos destinos apesar do culto à beleza e juventude que vivemos.

Triste para mim, para além de um corpo marcado pelo tempo é o envelhecimento do espírito, a mediocridade da alma, a desesperança, a sensação de que não há mais nada a fazer, de deixar-se vencer pelo cansaço das frustrações, de não se permitir desfrutar das pessoas que nos são caras, de se privar de curtir novos amores que se apresentam ou novos amigos. Mais triste ainda, para mim, é ter a sensação de que já se viveu o que deveria ter vivido! Como se pode dizer isso se, de acordo com a forma com que olhamos e nos postamos diante do mundo e de nós mesmos, somos capazes de descobrir e re-conhecer com mais intensidade e beleza inúmeras situações que vimos mil vezes mas que talvez, por falta de maturidade, não conseguimos perceber a beleza ímpar que lhe concerne? Será que é em qualquer idade que conseguimos desfrutar e perceber a importância dos amigos, a beleza da música, do som conduzindo os nossos corpos, da alegria do encontro de palavras, da curtição de boas companhias, da beleza da história de um livro, das sutilezas de uma frase ou de uma boa comida? O que dizer da possibilidade de desfrutar de um bom vinho, de uma água quentinha, do pé na relva, de uma noite estrelada, um dia de sol, a brisa, o aroma da terra molhada, o amanhecer, a presença dos filhos, dos sonhos possíveis e por que não também dos impossíveis mas que servem para florir a dureza de momentos mais duros?

Quantas dimensões somos capazes de captar? Captamos o que a abertura ou não do nosso espírito nos permite viver e isso talvez seja uma questão de conquistar um estágio de merecimento que nem todos conseguem alcançar. Por mais que soframos, nos acostumamos muito mais com o sofrimento, a angústia e a frustração do que com a possibilidade do novo, do sucesso, do encontro. Quantas “vidas” somos ainda capazes de viver? Quais formas de estar no mundo nos são possíveis de inventar? Talvez a forma como cuidamos da nossa “sede” de viver nos agracia com a dádiva da sede de viver, que subverte a lógica do tempo que teima em desgastar os nossos dias e nossos corpos.

Texto de: Návia T. Pattussi /Psicanalista

naviat@terra.com.br

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Enviado por: Marcos A. Bedin
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