27 de agosto de 2009

O Horror dos que arrotam grosso

Continuo batendo na tecla da RESPONSABILIDADE por que não me conformo com muitas coisas que estão acontecendo e se chocam com o que pretensamente se tem como o esperado ou aceitável.

Por: Návia T. Pattussi/Psicanalista/naviat@terra.com.br

Impõe-se ao meu pensamento a imagem de Fernando Collor dizendo a Pedro Simon para engolir as palavras que proferiu e digeri-las da forma que melhor lhe aprouver. Ou Renan Calheiros ou José Sarney com suas biografias igualmente duvidosas em termos de ética e honestidade, “arrotarem grosso” como vítimas de um sistema que não reconhece sua história. Chegamos ao cúmulo do cinismo e da desfaçatez, tanto mais por que se sabe que nada disso tudo tem conseqüências e a safadeza parece estar institucionalizada. Tudo continua e continuará como sempre foi.

Dá uma tristeza não conseguir enxergar uma luz no fim do túnel e ter que aceitar passivamente isso tudo. Como essa posição não faz parte de mim, procuro no meu entorno as raízes do que acontece. Tudo bem, nós é que elegemos essa “catrefa” que não assume a responsabilidade dos seus atos. Parece que essa noção de responsabilidade está em vias de extinção. É chocante e estranho constatar isso. Crescemos ouvindo que somos responsáveis pelos próprios atos e o que estamos vivendo é a concretude surreal de fazer o que bem entender com a factível probabilidade de não ser responsabilizado por isso.


O psicanalista Mário Fleig num estudo preparatório para o Colóquio Internacional sobre Ética na Psicanálise, que teremos neste mês de agosto, coloca: “O que observamos na modernidade recente, formulado em meados do século passado, é o surgimento de algo como uma “moral sem pecado”, ou seja, faça como você quer e isso não terá nenhuma conseqüência.

Se você agir bem, é ótimo. Se agir mal, não se preocupe. Sendo assim, parece que no contexto dito “pós-moderno” há uma espécie de retorno para uma nova forma de destino cego, com o progressivo apagamento da noção de responsabilidade. Responsabilidade significa, literalmente, “responder por”, ou seja, res pondere, do latim, pôr, colocar a coisa. Que coisa? Aquela que importa para a vida de cada um em comum com os outros, e para a excelência disso. Res como em “res-pública”, o cuidado com a coisa pública. Se o pressuposto do agente é que ‘não vai dar nada”, isso implicaria uma entrega cega aos acontecimentos, forma de destino e, além disso, que não caberia responder por isso. O declínio da responsabilidade afeta não só a coisa privada, mas igualmente a coisa pública. Anuncia a ruína da República, levando ao fim da política.”


Se prestarmos atenção veremos que essa tendência à desresponsabilização está na ordem do dia em vários aspectos. Na educação dos filhos quando eles podem fazer o que quiserem que não há conseqüências. Podem comer biscoitos recheados porque se antes não tinham vitaminas agora são vitaminados, se antes eram gordurosos agora não tem mais gordura trans. Podem “pintar e bordar” em muitas escolas que elas possivelmente relevarão o fato para não perder o aluno ou o professor.

Nos sintomas emocionais com essa onda alucinada de tomar remédio por qualquer mal estar há uma tendência à desresponsabilização pelo que acontece conosco, pois afinal o sujeito está mal porque alguma alteração fisiológica está comandando tudo e então ele não tem nada com isso. O problema sempre está fora: nos outros ou no comando cerebral.

Em nós, profissionais da área psi, quando talvez em algum momento nos calamos coniventemente diante do paciente que justifica o caos de sua vida porque está com dificuldades emocionais, traumatizado pelas lembranças dolorosas de seus bloqueios. O fato é que, independente disso tudo ele é o único responsável pela sua própria vida atualmente e tem que arcar solitariamente com as conseqüências de suas atitudes.


Não há mais como sustentar a vivência infantil de que alguém nos salva literalmente do desamparo nos alimentando e dando amor. De que alguém, em algum lugar vai resolver o nosso problema para nós. Não vai não! O máximo que um profissional pode fazer quando ele é requisitado é auxiliar o sujeito para que potencialize suas forças, ajudando-o a enxergar os empecilhos que lhe impedem de seguir andando. Mas se o paciente não se responsabilizar pela sua vida, nada acontece, ou melhor, o pior é o que pode acontecer: como diz Fleig, é a “ruina” da coisa privada, assim como estamos vivendo o prenúncio da “morte” da coisa pública, com o tipo de alguns políticos que elegemos.

Fonte: Marcos A. Bedin
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