10 de janeiro de 2011

Perdas e Renascimentos

Chorava as minhas mágoas e perdas, chorando pela dor dos outros. Todos consternados em volta do caixão a lamentar mais uma parte que se foi. Sim, porque se choramos é sempre por perder algo que sentimos como nosso e fazendo parte da nossa vida. Chorava, portanto, num velório, pelos outros e por mim.

Como se despedir do que nos é caro? Em qualquer tipo de despedida: seja através da morte, de uma desilusão, de uma doença incurável, da perda de uma parte do corpo, de falências financeiras. O que fazer com o lugar vazio que preenchemos com o que construímos do que vemos no outro, pois ele é sempre inventado? O outro das nossas relações, quer seja ele uma pessoa, um trabalho, uma parte do nosso corpo, é sempre um objeto em relação ao qual temos um investimento afetivo intenso. Portanto, por trás da dor da perda existe sempre um grande amor. Essa idéia é bastante desenvolvida num livro emocionante chamado “O Livro da Dor e do Amor” (Násio, Ed. Zahar). E esse amor inventa um montão de coisas: inventa a pessoa qPerdasRue queremos ter conosco, dá o tom ou constrói a imagem de tudo o que queremos acreditar.

Talvez por isso nos desiludimos tanto com as pessoas: relacionamos-nos com imagens e como elas nem sempre se sustentam indefinidamente, algum dia caem, as pessoas se mostram como realmente são através de fatos concretos e sentimos que estamos perdendo algo. O que se perde então são sempre “construções”, concretas ou subjetivas.

A perda é um “corte”, algo que se impõe à nossa revelia e que talvez nos coloque no devido lugar: o lugar desconfortável da nossa finitude e dos nossos limites. Nos dá um basta, como quem diz: Chega de sonhar! Levanta, o mundo é maior do que o limite do conforto das tuas imagens! Anda, explore o que há além do que enxergas! Isso tudo nos revira pelo avesso, põe por terra verdades tidas como estabelecidas e nos obriga a rever tudo. A dor da perda desconcerta, faz sofrer, dói “pra burro”, dá uma confusão danada, mas não têm como se furtar dela por um tempo. Ela habita em nós e cabe às condições de cada um a forma como vai lidar com isso.

Todavia, remexendo nos destroços, o que pode ser legal é a possibilidade das perdas nos induzirem a reavaliar uma série de coisas: o tipo de vida que levamos, os erros que cometemos, o futuro que desejamos, a pessoa que pensamos que somos, o nosso lugar no mundo e na vida das pessoas que amamos, o lugar que ocupam em nós aqueles que nos são caros.

Pelo visto, somente através de grandes abalos, de experiências limites, de muita dor, mas também de um grande amor por nós mesmos é que podemos transformar o sofrimento numa mola que nos faça renascer a cada embate, talvez um pouco mais inteiros, colando alguns pedaços, faltando outros, fazendo algumas “combinações” diferentes com as mesmas peças, tomando algum fôlego, até... a próxima.

Por: Návia T. Pattussi/Psicanalista/naviat@terra.com.br

Fonte: MARCOS A. BEDIN

MB Comunicação Empresarial/Organizacional

mb@mbcomunicacao.com.br

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